quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Momento de reflexão (ou: como me aproximar da ação?)

Foto: Pati Almeida


Há algum tempo venho observando e analisando certas coisas, dentre elas o modo como vem se desenvolvendo a participação cidadã em Salvador. Até sofro a pressão de alguns amigos por participar de alguns movimentos, aderir a algumas causas, para somar, de alguma maneira. Mas, talvez essa minha exigência pessoal de que as pessoas aprendam de fato a participar desses movimentos, e talvez nesse ponto eu não esteja sendo tolerante com o processo de aprendizagem, acaba por me afastar dos movimentos, infelizmente, o que me tira também a possibilidade de aprender a participar.

Um parêntese: não tenho a pretensão de me julgar certa, é apenas uma questão de opinião de quem nem ao menos se “abriu” para o exercício, diga-se de passagem! Sendo assim, pode ser uma “fala” cujo crédito pode ser desconsiderado! Também não pretendo julgar, ainda que nosso discurso sempre tenda para algo do tipo, mas apenas analisar e refletir.

O que tenho visto, principalmente através da rede social facebook, são pessoas que estão dispostas a mudar os rumos de suas cidades e, em particular, em Salvador, uma forma curiosa de participação, onde as pessoas acabam entrando num enfrentamento de concepções e posições acerca de tudo, o que, na minha opinião acaba enfraquecendo os próprios movimentos. Não que o embate de idéias e opiniões necessite ser horizontal, sem contradições, não seria ele legítimo se assim não fosse! Mas penso que muitos desses movimentos ainda estão num processo inicial e ainda incipientes como causa social, quando vemos fóruns nos quais impera a discussão com foco mais partidário, mais individualista e auto-centrado, do que com uma visão mais ampla das situações, contribuindo para melhorar a qualidade das decisões através do debate público e da construção de alternativas.

Parece-me que determinadas questões e ações se colocam na contramão do desenvolvimento de políticas públicas, que seriam de fato mais efetivas, para ficar no âmbito do “ser contra”, de um modo bem simplista e até mesmo ingênuo, no que se refere à construção da sociedade política.

Questiono algumas posições, que acabam se voltando contra o próprio cidadão, uma “briga de foice”, o que acaba mudando o foco da ação, dando a ela um caráter mais individualista ou de classes, ao invés de coletivo. Acompanhei muitas mobilizações e discussões nesse sentido. Posso dar alguns exemplos, o próprio MOVIMENTO DESOCUPA, da praça de Ondina, e posteriormente o DESOCUPA JOÃO, este último encontra-se numa tentativa de se fortalecer, ampliando o debate para questões importantes de interesse público.

Há quanto tempo os espaços públicos de Salvador são ocupados por camarotes? É mesmo a primeira vez que isso acontece, ou não estivemos atentos outras vezes? Há quanto tempo o carnaval de Salvador deixou de ser democrático, apertando cada ano que passa o folião que não tem acesso aos blocos e suas cordas e aos camarotes, estando sujeitos à barbárie? Há quanto tempo a especulação imobiliária atua em Salvador, os empreendimentos são construídos sem licenças ou com licenças obtidas de modo escuso, como no caso da expansão imobiliária na Paralela? Há quanto tempo Salvador vive situações de violência urbana e graves violações dos direitos humanos? Há quanto tempo tem aumentado a baixa credibilidade das instituições de segurança e Justiça junto à população? Há quanto tempo essa questão do despreparo das forças policiais para o enfrentamento do crime e das altas taxas de impunidade faz parte do nosso cotidiano? Há quanto tempo temos governantes que não nos representam de fato e nem atendem às inúmeras demandas sociais, por educação, saúde, segurança, dentre outras? Há muito tempo!

Poderia enumerar aqui centenas de outros exemplos que têm causado indignação e mobilizado parte da população a ir às ruas. O que tem mobilizado a minha reflexão é o modo como a maioria delas acontece e como as pessoas constroem seus discursos, nem me refiro às ações, que acabam sendo sufocadas antes mesmo de se chegar a consensos importantes para a condução das decisões.

Recorro aqui a algumas idéias de Elenaldo Teixeira (in memoriam), doutor em Ciência Política pela USP, ex-professor e pesquisador do departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA, no seu livro Sociedade Civil e Participação Cidadã no Poder Local. Segundo o autor, “Esta participação não se dá no vácuo nem nas instituições da sociedade política [e sim civil]. Constitui-se de ações que se realizam de forma organizada e planejada ou, às vezes espontânea, numa relação contraditória entre os diversos atores.” Isto para mim está claro, aqui temos vivido as situações mais espontâneas, em poucos casos se estendendo para aquelas que abrem espaço para discussões mais planejadas, como tem sido o caso do MOVIMENTO DESOCUPA, que iniciou de forma espontânea e hoje tem promovido arenas de debate entre os que se mostram interessados nas mudanças. Penso que seja agora necessário a adesão de mais pessoas, vinculadas à estrutura do Estado, com representação da sociedade civil, para que se possa pensar em formulação de proposições e questionamento das ações e decisões, ao contrário de parar na fase do debate e gerar frustração pela ausência de alcance de objetivos efetivos. Mas, para isso, é preciso ainda amadurecer a discussão em torno do foco que se pretende, que me parece ser a LOUS e o PDDU de Salvador, lembrando que são dois temas que podem incluir outras discussões envolvendo moradia e transporte, por exemplo.

[Talvez meu discurso não siga uma direção única, no sentido do objetivo: analisar a forma de participação, mas sigo tentando!] O autor traz ainda uma caracterização do fenômeno da participação, que segundo ele, pode ser direta ou indireta, institucionalizada ou “movimentalista”, mas chama a atenção que esta última é mais voltada para a expressão, ainda que possa ter impacto ou influência no processo decisório, e tem um caráter mais simbólico na cena política, apesar de sua importância na formação da opinião. E sobre isso, me conforta este trecho: “Não se trata, portanto, de valorizar uma ou outra dessas polaridades, mas de considerá-las quanto à sua possibilidade de fortalecer e aprofundar a democracia, e quanto à limitações para torná-la efetiva, independente das formas de que se pode revestir, a participação significa “fazer parte”, “tomar parte”, “ser parte” de um ato ou processo, de uma atividade pública, de ações coletivas. A referência “à parte” implica pensar o todo, a sociedade, o Estado, a relação das partes entre si e destas com o todo. Como esse todo não é homogêneo, as partes têm interesses, aspirações, valores e recursos de poder diferenciados. Diante disso, coloca-se o problema de como responder aos interesses gerais em face do particularismo e do corporativismo dos atores.” Eis o cerne da questão! Através de discussões, negociações, argumentações que possam levar a consensos, e esses, por sua vez, possam se traduzir em decisões no sistema político, o que exige procedimentos e comportamentos racionais.

Tarefa complexa esta, e penso que o nosso desafio está exatamente nesse ponto. Creio que o exercício dos atores não consegue avançar tanto, ter tanta adesão, talvez pela fragilidade de selecionar as prioridades e torná-las transparentes, somado à dificuldade de entendimento e consenso entre os mesmos. Talvez nos falte o que o autor chama de “lógica estratégica”, e muitas são as razões para não a termos, a própria cultura política e seu desenvolvimento histórico pode ter favorecido para esta ausência, onde o próprio sistema participativo, historicamente, configurou-se num regime de democracia competitiva.

O processo de participação é um fenômeno muito complexo e merece que nos debrucemos para compreender todos os elementos que o envolvem. O livro que citei é um excelente apoio nesse sentido!

E nesse exercício de participação se experimenta PARTICIPAR [independente do “há quanto tempo”. Antes tarde do que nunca!].

Aprendamos todos!

terça-feira, 19 de julho de 2011



falo. a voz volta a mim ainda que não seja eco. vai primeiro a este outro com o qual desde sempre convivo: ele responde-me,sei-o bem, mas muito raramente compreendo o que diz. logo - essa voz que de mim brota - viaja. tão longe, tão longe que mais do que uma vez a dei por perdida. atravessa múltiplas, fatigantes etapas; fala, obstina-se em falar - e julgar pelos fúteis quando não ineficazes resultados tão vãmente - a todos quem fui, a todos os que tive a ilusão de ser. a única impressão (que caberia chamar) inteligível que me deixa o coro acre das suas vozes é que não há entre todos eles um só que não deplore o seu destino.(...)

Carlos Culleré

quarta-feira, 15 de junho de 2011


interessante o poder de renovação pelo qual as coisas, acontecimentos, pessoas, natureza, passam... nos últimos dois anos, a renovação tem sido uma constante em minha vida: desde o estado civil, aos velhos amigos e filha que se mudaram, aos novos amigos que chegaram, ao novo trabalho que "apareceu", ao resignificar do velho trabalho, aos novos prazeres, às dores "fresquinhas", algumas antigas, guardadas mas apaziguadas, às alegrias recentes, aos ciclos, à infância para a adolescência da filha mais nova, e tanto mais! tudo me cabe nesses meus quarenta e um anos! bem-vinda, re-nova-ação!

e por falar em estrada...



muito tempo que não passo aqui... se quer pra fazer uma faxina, tirar a poeira, abrir as janelas para entrar a brisa e refrescar o ambiente. é que essa vida é uma estrada, de tantos caminhos, pra onde me levam? tenho feito as escolhas, nada de "deixa a vida me levar, vida leva eu", desculpa, meu caro Zeca Pagodinho, a minha vida, sou eu que traço, como boa baiana, com régua e compasso (opa, uma rima!). as vezes nem orna uma escolha e outra, mas é nessa confusão que vou aprendendo, na lida com o outro e comigo mesma. e nessa lida, a inspiração, aliás, não, inspiração é pr'os poetas e eu estou longe de ser uma! vou tentando, rabiscando, dando forma aos pensamentos, e as vezes eles ficam com essa forma, de palavras, que viram frases e quando vejo, vira um texto. mas até isso só acontece quando tenho uma quase inspiração (lembra, inspiração quem tem é poeta!). sou mais movida pela tristeza, melancolia, o conhecido baixo-astral me mobiliza por demais a escrever! incrível, não escrevo quando estou feliz, sem os velhos "grilos" (velhos porque essa é mesmo uma gíria antiga, quase ninguém a usa mais, mas os grilos, esses são sempre novinhos, um vai embora e outro logo chega, com seu ruído estridente). mas eu agora ando sem grilos na cabeça, estou bem leve, na verdade. mas da estrada, daquela que leva a outros lugares, dessa tenho sentido falta já.... vou ali, volto já!

sábado, 25 de dezembro de 2010

estradas





Desde que inaugurei este blog, tenho estado fixada em fotografias de estradas. No começo, pra ilustrá-lo, por conta do nome que lhe dei. Nunca lhes contei a razão desse nome, um tanto estranho pode lhes parecer, pois até a mim pareceu, num primeiro momento. Em algum lugar vi um bichinho chamado lavagante, mora no mar, um crustáceo. Ele me inspirou, pela sonoridade e pela idéia de um lar que vaga... Isso sempre me interessou: viajar. Decidido: larvagante! Pronto, estava inaugurado também o novo gosto: fotos de estradas.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

na letra "i" eu gosto de

imã, ilusão, iluminar, ilustração

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Representamos o objetivo e o subjetivo, a quantidade e a qualidade, o número cardinal e o ordinal, a desordem corpuscular e a música das esferas, a fatalidade e a liberdade. Representamos tudo isso, num cenário sólido, líquido e gasoso. E, por isso, comemos, bebemos, e respiramos; - três virtudes do fôlego animado, porque muda o que come, em sensações, o que bebe em sentimentos e o que respira em ideias claras ou obscuras, conforme é límpido o ar ou enevoado… É de sólida origem a sensação; o sentimento é já de origem fluídica; e, então, o pensamento é só cor azul ou imagem íntima da luz…

Teixeira de Pascoaes

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Encontro com Sr. Valdir (garimpeiro)

Lençois - Jun 2010


tenho estado distante daqui. tenho notado que o tempo passa depressa. tenho feito muita coisa. tenho feito muita coisa mesmo. tenho viajado. tenho conhecido lugares que não conhecia. tenho voltado a lugares conhecidos. tenho conhecido pessoas. tenho trabalhado muito. tenho notado que o tempo passa depressa...

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Para lembrar



Pensar, pensar
Por Fundação José Saramago

Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma.

Revista do Expresso, Portugal (entrevista), 11 de Outubro de 2008

quarta-feira, 30 de junho de 2010

sábado, 15 de maio de 2010

terça-feira, 27 de abril de 2010

sapato azul

Cibelle

Meu sapato azul é meu amigo
E com o pé no céu eu vou
Meu cabelo não pega fumaça
E nos meus dedos tenho penas para voar
E com os olhos bem abertos
Guardo pequenas estrelas
Pedacinhos de Deus
Pedacinhos de Deus

Asas coloridas
Asas coloridas

Desenhando com os dedos
A nuvem no céu
Escorregando, escorregando
Em asas de avião
Desenhando com os dedos
A nuvem no céu
Escorregando, escorregando
Em asas de avião

O sol me encantou
E me fez borboletas
?
Eu moro no céu
E os anjos das alamedas
Que habitam nos olhos dos moços
Vêm todos me visitar
Lá no céu
Lá no céu
Lá no céu

Com asas coloridas
Asas coloridas
Asas coloridas
Asas coloridas

Desenhando com os dedos
A nuvem no céu
Escorregando, escorregando
Em asas de avião
Desenhando com os dedos
A nuvem no céu
Escorregando, escorregando
Em asas de avião

quinta-feira, 8 de abril de 2010

domingueiras





Outras: domingasdomingas.blogspot.com


domingo, 21 de março de 2010

21 de março - Dia mundial da poesia

Foto: Nascer da lua em Lençois
O POETA E A LUA
Vinicius de Moraes

Em meio a um cristal de ecos
O poeta vai pela rua
Seus olhos verdes de éter
Abrem cavernas na lua.
A lua volta de flanco
Eriçada de luxúria
O poeta, aloucado e branco
Palpa as nádegas da lua.
Entre as esferas nitentes
Tremeluzem pêlos fulvos
O poeta, de olhar dormente
Entreabre o pente da lua.
Em frouxos de luz e água
Palpita a ferida crua
O poeta todo se lava
De palidez e doçura.
Ardente e desesperada
A lua vira em decúbito
A vinda lenta do espasmo
Aguça as pontas da lua.
O poeta afaga-lhe os braços
E o ventre que se menstrua
A lua se curva em arco
Num delírio de volúpia.
O gozo aumenta de súbito
Em frêmitos que perduram
A lua vira o outro quarto
E fica de frente, nua.
O orgasmo desce do espaço
Desfeito em estrelas e nuvens
Nos ventos do mar perspassa
Um salso cheiro de lua
E a lua, no êxtase, cresce
Se dilata e alteia e estua
O poeta se deixa em prece
Ante a beleza da lua.
Depois a lua adormece
E míngua e se apazigua...
O poeta desaparece
Envolto em cantos e plumas
Enquanto a noite enlouquece
No seu claustro de ciúmes
.

confraria du balanço

Tá querendo balançar?!


Teleco, o coelho

“Três coisas me são difíceis de entender, e uma quarta eu a ignoro completamente: o caminho da águia no ar, o caminho da cobra sobre a pedra, o caminho da nau no meio do mar, e o caminho do homem na sua mocidade.”
(Provérbios, XXX, 18 e 19)

- Moço, me dá um cigarro?

A voz era sumida, quase um sussurro. Permaneci na mesma posição em que me encontrava, frente ao mar, absorvido com ridículas lembranças.

O importuno pedinte insistia:

- Moço, oh! Moço! Moço me dá um cigarro?

Ainda com os olhos fixos na praia, resmunguei:

Vá embora, moleque, senão chamo a polícia.

- Está bem, moço. Não se zangue. E, por favor; saia da minha frente, que eu também gosto de ver o mar.

Exasperou-me a insolência de quem assim me tratava e virei-me, disposto a escorraçá-lo com um pontapé. Fui desarmado, entretanto. Diante de mim estava um coelhinho cinzento, a me interpelar delicadamente:

- Você não dá é porque não tem, não é, moço?

O seu jeito polido de dizer as coisas comoveu-me. Dei-lhe o cigarro e afastei-me para o lado, a fim de que melhor ele visse o oceano. Não fez nenhum gesto de agradecimento, mas já então conversávamos como velhos amigos. Ou, para ser mais exato somente o coelhinho falava. Contava-me acontecimentos extraordinários, aventuras tamanhas que o supus com mais idade do que realmente aparentava.

Ao fim da tarde, indaguei onde ele morava. Disse não ter morada certa. A rua era o seu pouso habitual. Foi nesse momento que reparei nos seus olhos. Olhos mansos e tristes. Deles me apiedei e convidei-o a residir comigo. A casa era grande e morava sozinho acrescentei.

A explicação não o convenceu. Exigiu-me que revelasse minhas reais intenções:

Por acaso, o senhor gosta de carne de coelho? Não esperou pela resposta:

- Se gosta, pode procurar outro, porque a versatilidade é o meu fraco.

Dizendo isto, transformou-se numa girafa.

- A noite - prosseguiu - serei cobra ou pombo. Não lhe importará a companhia de alguém tão instável?

Respondi-lhe que não e fomos morar juntos.

Chamava-se Teleco.

Depois de uma convivência maior, descobri que a mania de metamorfosear-se em outros bichos era nele simples desejo de agradar ao próximo. Gostava de ser gentil com crianças e velhos, divertindo-os com hábeis malabarismos ou prestando-lhes ajuda. O mesmo cavalo que, pela manhã, galopava com a gurizada, à tardinha, em lento caminhar, conduzia anciãos ou inválidos às suas casas.

Não simpatizava com alguns vizinhos, entre eles o agiota e suas irmãs, aos quais costumava aparecer sob a pele de leão ou tigre. Assustava-os mais para nos divertir que por maldade. As vítimas assim não entendiam e se queixavam à polícia, que perdia o tempo ouvindo as denúncias. Jamais encontraram em nossa residência, vasculhada de cima a baixo, outro animal além do coelhinho. Os investigadores irritavam-se com os queixosos e ameaçavam prendê-los.

Apenas uma vez tive medo de que as travessuras do meu irrequieto companheiro nos valessem sérias complicações. Estava recebendo uma das costumeiras visitas do delegado, quando Teleco, movido por imprudente malícia, transformou-se repentinamente em porco-do-mato. A mudança e o retorno ao primitivo estado foram bastante rápidos para que o homem tivesse tempo de gritar. Mal abrira a boca, horrorizado, novamente tinha diante de si um pacifico coelho:

O senhor viu o que eu vi?

Respondi, forçando uma cara inocente, que nada vira de anormal.

O homem olhou-me desconfiado, alisou a barba e, sem se despedir, ganhou a porta da rua.

A mim também me pregava peças. Encontrava-se vazia a casa, já sabia que ele andava escondido em algum canto, dissimulado em algum pequeno animal. Ou mesmo no meu corpo sob a forma de pulga, fugindo-me dos dedos, correndo pelas minhas costas. Quando começava a me impacientar e pedia-lhe que parasse com a brincadeira, não raro levava tremendo susto. Debaixo das minhas pernas crescera um bode que, em disparada, me transportava até o quintal. Eu me enraivecia, prometia-lhe uma boa surra. Simulando arrependimento, Teleco dirigia-me palavras afetuosas e logo fazíamos as pazes.

No mais, era o amigo dócil, que nos encantava com inesperadas mágicas. Amava as cores e muitas vezes surgia transmudado em ave de todas as espécies inteiramente desconhecidas ou de raça já extinta.

Não existe pássaro assim!

Sei. Mas seria insípido disfarçar-me somente em animais conhecidos.

O primeiro atrito grave que tive com Teleco ocorreu um ano após nos conhecermos. Eu regressava da casa da minha cunhada Emi, com quem discutira asperamente sobre negócios de família. Vinha mal-humorado e a cena que deparei ao abrir a porta da entrada, agravou minha irritação. De mãos dadas, sentados no sofá da sala de visitas, encontravam-se uma jovem mulher e um mofino canguru. As roupas dele eram mal talhadas, seus olhos se escondiam por trás de uns óculos de metal ordinário.

O que deseja a senhora com esse horrendo animal? - perguntei, aborrecido por ver minha casa invadida por estranhos.

- Eu sou o Teleco - antecipou-se, dando uma risadinha.

Mirei com desprezo aquele bicho mesquinho, de pêlos ralos, a denunciar subserviência e torpeza. Nada nele me fazia lembrar o travesso coelhinho.

Neguei-me a aceitar como verdadeira a afirmação, pois Teleco não sofria da vista e se quisesse apresentar-se vestido teria o bom gosto de escolher outros trajes que não aqueles.

Ante a minha incredulidade, transformou-se numa perereca. Saltou por cima dos móveis, pulou no meu colo. Lancei-a longe, cheio de asco.

Retomando a forma de canguru, inquiriu-me, com um ar extremamente grave:

- Basta esta prova?

- Basta. E daí? O que você quer?

-De hoje em diante serei apenas homem.

-Homem? - indaguei atônito. Não resisti ao ridículo da situação e dei uma gargalhada:

- E isso? Apontei para a mulher. É uma lagartixa ou um filhote de salamandra?

Ela me olhou com raiva. Quis retrucar, porém ele atalhou:

- É Tereza. Veio morar conosco. Não é linda?

Sem dúvida, linda. Durante a noite, na qual me faltou o sono, meus pensamentos giravam em torno dela e da cretinice de Teleco em afirmar-se homem.

Levantei-me de madrugada e me dirigi à sala, na expectativa de que os fatos do dia anterior não passassem de mais um dos gracejos do meu companheiro.

Enganava-me. Deitado ao lado da moça, no tapete do assoalho, o canguru ressonava alto. Acordei-o, puxando-o pelos braços:

- Vamos, Teleco, chega de trapaça.

Abriu os olhos, assustado, mas, ao reconhecer-me, sorriu:

-Teleco?! Meu nome é Barbosa, Antônio Barbosa, não é, Tereza?

Ela, que acabara de despertar, assentiu, movendo a cabeça. Explodi, encolerizado:

- Se é Barbosa, rua! E não me ponha mais os pés aqui, filho de um rato!

Desceram-lhe as lágrimas pelo rosto e, ajoelhado, na minha frente, acariciava minhas pernas, pedindo-me que não o expulsasse de casa, pelo menos enquanto procurava emprego.

Embora encarasse com ceticismo a possibilidade de empregar-se um canguru, seu pranto me demoveu da decisão anterior, ou, para dizer a verdade toda, fui persuadido pelo olhar súplice de Tereza que, apreensiva, acompanhava o nosso diálogo.

Barbosa tinha hábitos horríveis. Amiúde cuspia no chão e raramente tomava banho, não obstante a extrema vaidade que o impelia a ficar horas e horas diante do espelho. Utilizava-se do meu aparelho de barbear, da minha escova de dente e pouco serviu comprar-lhe esses objetos, pois continuou a usar os meus e os dele. Se me queixava do abuso, desculpava-se, alegando distração.

Também a sua figura tosca me repugnava. A pele era gordurosa, os membros curtos, a alma dissimulada. Não media esforços para me agradar, contando-me anedotas sem graça, exagerando nos elogios à minha pessoa.

Por outro lado, custava tolerar suas mentiras e, às refeições, a sua maneira ruidosa de comer, enchendo a boca de comida com auxílio das mãos.

Talvez por ter-me abandonado aos encantos de Tereza, ou para não desagradá-la, o certo é que aceitava, sem protesto, a presença incômoda de Barbosa.

Se afirmava ser tolice de Teleco querer nos impor sua falsa condição humana, ela me respondia com uma convicção desconcertante:

- Ele se chama Barbosa e é um homem.

O canguru percebeu o meu interesse pela sua companheira e, confundindo a minha tolerância como possível fraqueza, tornou-se atrevido e zombava de mim quando o recriminava por vestir minhas roupas, fumar dos meus cigarros ou subtrair dinheiro do meu bolso.

Em diversas ocasiões, apelei para a sua frouxa sensibilidade, pedindo-lhe que voltasse a ser coelho.

Voltar a ser coelho? Nunca fui bicho. Nem sei de quem você fala.

- Falo de um coelhinho cinzento e meigo, que costumava se transformar em outros animais.

Nesse meio tempo, meu amor por Tereza oscilava por entre pensamentos sombrios, e tinha pouca esperança de ser correspondido. Mesmo na incerteza, decidi propor-lhe casamento.

Fria, sem rodeios, ela encerrou o assunto:

- A sua proposta é menos generosa do que você imagina. Ele vale muito mais.

As palavras usadas para recusar-me convenceram-me de que ela pensava explorar de modo suspeito às habilidades de Teleco.

Frustrada a tentativa do noivado, não podia vê-los juntos e íntimos, sem assumir uma atitude agressiva.

O canguru notou a mudança no meu comportamento e evitava os lugares onde me pudesse encontrar.

Uma tarde, voltando do trabalho, minha atenção foi alertada pelo som ensurdecedor da eletrola, ligada com todo o volume. Logo ao abrir a porta, senti o sangue afluir-me à cabeça: Tereza e Barbosa, os rostos colados, dançavam um samba indecente.

Indignado, separei-os. Agarrei o canguru pela gola e, sacudindo-o com violência, apontava-lhe o espelho da sala:

-É tu, não é um animal?

-Não, sou um homem! - E soluçava, esperneando, morto de medo pela fúria que via nos meus olhos.

A Tereza, que acudira, ouvindo seus gritos, pedia:

- Não sou um homem, querida? Fala com ele:

-Sim, amor, você é um homem.

Por mais absurdo que me parecesse, havia uma trágica sinceridade na voz deles. Eu me decidira, porém. Joguei Barbosa ao chão e lhe esmurrei a boca. Em seguida, enxotei-os.

Ainda da rua, muito excitada, ela me advertiu:

- Farei de Barbosa um homem importante, seu porcaria!

Foi a última vez que os vi. Tive, mais tarde, vagas notícias de um mágico chamado Barbosa a fazer sucesso na cidade. A falta de maiores esclarecimentos, acreditei ser mera coincidência de nomes.

A minha paixão por Tereza se esfumara no tempo e voltara o interesse pelos selos. As horas disponíveis eu as ocupava com a coleção.

Estava, uma noite, precisamente colando exemplares raros, recebidos na véspera, quando saltou, janela adentro, um cachorro. Refeito do susto, fiz menção de correr o animal. Todavia não cheguei a enxotá-lo.

- Sou o Teleco, seu amigo, afirmou, com uma voz excessivamente trêmula e triste, transformando-se em uma cotia.

-E ela? Perguntei com simulada displicência.

-Tereza… sem que concluísse a frase, adquiriu as formas de um pavão.

Havia muitas cores… O circo… Ela estava linda… Foi horrível… Prosseguiu, chocalhando os guizos de uma cascavel.

Seguiu-se breve silêncio, antes que voltasse a falar:

-O uniforme… muito branco… cinco cordas… amanhã serei homem… - as palavras saíam-lhe espremidas, sem nexo, à medida que Teleco se metamorfoseava em outros animais.

Por um momento, ficou a tossir Uma tosse nervosa. Fraca, a princípio, ela avultava com as mutações dele em bichos maiores, enquanto eu lhe suplicava que se aquietasse. Contudo ele não conseguia controlar-se.

Debalde tentava exprimir-se. Os períodos saltavam curtos e confusos.

- Pare com isso e fale mais calmo - insistia eu, impaciente com as suas contínuas transformações.

-Não posso, tartamudeava, sob a pele de um lagarto.

Alguns dias transcorridos perdurava o mesmo caos. Pelos cantos, a tremer, Teleco se lamuriava, transformando-se seguidamente em animais os mais variados. Gaguejava muito e não podia alimentar-se, pois a boca, crescendo e diminuindo, conforme o bicho que encarnava na hora, nem sempre combinava com o tamanho do alimento. Dos seus olhos, então, escorriam lágrimas que, pequenas nos olhos miúdos de um rato, ficavam enormes na face de um hipopótamo.

Ante a minha impotência em diminuir-lhe o sofrimento, abraçava-me a ele, chorando. O seu corpo, porém, crescia nos meus braços, atirando-me de encontro à parede.

Não mais falava: mugia, crocitava, zurrava, guinchava, bramia, triscava.

Por fim, já menos intranqüilo, limitava as suas transformações a pequenos animais, até que se fixou na forma de um carneirinho, a balir tristemente. Colhi-o nas mãos e senti que seu corpo ardia em febre, transpirava.

Na última noite, apenas estremecia de leve e, aos poucos, se aquietou. Cansado pela longa vigília, cerrei os olhos e adormeci. Ao acordar, percebi que uma coisa se transformara nos meus braços. No meu colo estava uma criança encardida, sem dentes. Morta.

****

Fonte
RUBIÃO, Murilo. O Pirotécnico Zacarias e outros contos. Editora
Companhia dos Livros, 1993.

quinta-feira, 18 de março de 2010

surrealismo







Fotos: Alessandro Bavari
Alessandro Bavari nasceu em Latina, uma cidade costeira ao sul de Roma, Itália, em Abril de 1963. Suas obras são caracterizadas pelo surrealismo moderno e fortemente influenciadas por mitos culturais e alegorias indo-europeus, assim como artistas do século 14 e 15. Desde 1993, acrescenta a manipulação digital para sua arte, desenvolvendo uma linguagem pessoal artística utilizando produtos industriais e orgânicos da natureza antes de incorporar para o processo fotográfico.
Para mais informações, acesse: AlessandroBavari.com .

arte poetique

Foto: Milco Van Klingeren

Que formalismo
João Rui de Sousa

De lamber as palavras como se
rasas de silêncio elas fingissem
e não se trucidassem contra o vento
e não voassem fundo
e não ferissem?

De afagar as palavras como se
um aguçado arame não
nos arranhasse
e não despisse em nós
a veste que se cola,
a casca da aparência?

De alisar as palavras como se
não fosse duro e fundo
o solo de onde partiram
e o lancinante grito
que lá mora?

É sempre um homem que
por elas fala,
é sempre um coração
que aí adeja!

In Quarteto para as próximas chuvas, Lisboa: D. Quixote, 2008.