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terça-feira, 19 de julho de 2011



falo. a voz volta a mim ainda que não seja eco. vai primeiro a este outro com o qual desde sempre convivo: ele responde-me,sei-o bem, mas muito raramente compreendo o que diz. logo - essa voz que de mim brota - viaja. tão longe, tão longe que mais do que uma vez a dei por perdida. atravessa múltiplas, fatigantes etapas; fala, obstina-se em falar - e julgar pelos fúteis quando não ineficazes resultados tão vãmente - a todos quem fui, a todos os que tive a ilusão de ser. a única impressão (que caberia chamar) inteligível que me deixa o coro acre das suas vozes é que não há entre todos eles um só que não deplore o seu destino.(...)

Carlos Culleré

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Representamos o objetivo e o subjetivo, a quantidade e a qualidade, o número cardinal e o ordinal, a desordem corpuscular e a música das esferas, a fatalidade e a liberdade. Representamos tudo isso, num cenário sólido, líquido e gasoso. E, por isso, comemos, bebemos, e respiramos; - três virtudes do fôlego animado, porque muda o que come, em sensações, o que bebe em sentimentos e o que respira em ideias claras ou obscuras, conforme é límpido o ar ou enevoado… É de sólida origem a sensação; o sentimento é já de origem fluídica; e, então, o pensamento é só cor azul ou imagem íntima da luz…

Teixeira de Pascoaes

domingo, 21 de março de 2010

21 de março - Dia mundial da poesia

Foto: Nascer da lua em Lençois
O POETA E A LUA
Vinicius de Moraes

Em meio a um cristal de ecos
O poeta vai pela rua
Seus olhos verdes de éter
Abrem cavernas na lua.
A lua volta de flanco
Eriçada de luxúria
O poeta, aloucado e branco
Palpa as nádegas da lua.
Entre as esferas nitentes
Tremeluzem pêlos fulvos
O poeta, de olhar dormente
Entreabre o pente da lua.
Em frouxos de luz e água
Palpita a ferida crua
O poeta todo se lava
De palidez e doçura.
Ardente e desesperada
A lua vira em decúbito
A vinda lenta do espasmo
Aguça as pontas da lua.
O poeta afaga-lhe os braços
E o ventre que se menstrua
A lua se curva em arco
Num delírio de volúpia.
O gozo aumenta de súbito
Em frêmitos que perduram
A lua vira o outro quarto
E fica de frente, nua.
O orgasmo desce do espaço
Desfeito em estrelas e nuvens
Nos ventos do mar perspassa
Um salso cheiro de lua
E a lua, no êxtase, cresce
Se dilata e alteia e estua
O poeta se deixa em prece
Ante a beleza da lua.
Depois a lua adormece
E míngua e se apazigua...
O poeta desaparece
Envolto em cantos e plumas
Enquanto a noite enlouquece
No seu claustro de ciúmes
.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Que formalismo
João Rui de Sousa

De lamber as palavras como se
rasas de silêncio elas fingissem
e não se trucidassem contra o vento
e não voassem fundo
e não ferissem?

De afagar as palavras como se
um aguçado arame não
nos arranhasse
e não despisse em nós
a veste que se cola,
a casca da aparência?

De alisar as palavras como se
não fosse duro e fundo
o solo de onde partiram
e o lancinante grito
que lá mora?

É sempre um homem que
por elas fala,
é sempre um coração
que aí adeja!

In Quarteto para as próximas chuvas, Lisboa: D. Quixote, 2008.

terça-feira, 9 de março de 2010

Ao poeta

Manoel de Barros


Homenagem é coisa muito boa! E já estava mesmo na hora de render uma ao maravilhoso poeta Manoel de Barros! O documentário “Só dez por cento é mentira – A desbiografia oficial de Manoel de Barros”, do diretor Pedro Cezar, já está em cartaz na cidade, e eu vou correndo ver! Aliás, corro atrás do Manoel a tempos! Desde quando o conheci, virei andante de seus caminhos, através de seus poemas, num “idioleto manoelês” característico. Encantamento só! Adoro suas desconstruções, suas invenções! Adoro o Manoel!

“Sou metido. Sempre acho que na ponta de meu lápis tem um nascimento."

“Os rios começam a dormir pela orla, vaga-lumes driblam a treva. Meu olho ganhou dejetos, vou nascendo do meu vazio, só narro meus nascimentos."

“Para encontrar o azul eu uso pássaros”

"Noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira".

sábado, 26 de dezembro de 2009

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Ano Novo

Ferreira Gullar


Meia noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.

Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça:
nada ali indica
que um ano novo começa.

E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.

Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta)



sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Relógio

Oswald de Andrade

As coisas vão
As coisas vêm
As coisas vão
As coisas
Vão e vêm
Não em vão
As horas
Vão e vêm
Não em vão

(as coisas têm: peso, massa, volume, tamanho, tempo, forma, cor, posição, textura, duração, densidade, cheiro, valor, consistência, profundidade, contorno, temperatura, função, aparência, preço, destino, idade, sentido.

as coisas não têm paz.)
*Caetano Veloso

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Anjo das tormentas

Mauro Jorge Santos

os pescadores fecham
a saída e a entrada
da aldeia

encurralam o anjo
mas ele invoca os ventos

os pescadores são muitos
mas não acuam o anjo agora
não por restarem poucos
mas por ninguém ousar

aproximar-se do mistério de sua fúria

o anjo era o terror de cada um
- um terror incógnito -
como uma voz sem corpo
deslocada
que chama
ao lado contrário do ser

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

quarto crescente

Porque vejamos: uma lua destas
já nem lua é. A lua quer-se grande,
leitosa, apontável às crianças:
olha o homem da lua, os olhos, a

vassoura. Mas uma lua destas,
desfazendo-se em sombras, um ar
de quem passou o dia em claro
já nem lua é. Que não exija então

o impossível, que não se finja
a sério a pedir versos e algum olhar:
o poeta não usa telescópio,
nem se vai acordar uma criança
por gomos de luar

Ana Luísa Amaral,
In "COISAS DE PARTIR" (1993)

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

isca


Estou tão próxima das palavras, mas ainda assim me perco delas, às vezes...
Isca no mar de palavras, pesco algumas:

[...]

"Lutar com a palavra
é a luta mais vã.
No entanto,
lutamos mal rompe a manhã".

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 27 de julho de 2009

NAUFRÁGIO NA SALA CECÍLIA MEIRELES


.... mar com corpo, sala com mar, som

com sala, corpo com som. Sal, Sal,

e Sal. Boca de coral vermelho

numa língua de escamas cromáticas,

escalas de sargaço, notas desbotadas.

Naufrágio de cadeiras no resto

de ferros afundados. Ondas me arrastam

desta sala. Das correntezas do som,

a respiração deriva para a amplidão.

A dentada do pâncreas no rosto

de um tubarão. Onde as bocas

com a água dos corpos soletrada? Onde

as que querem com a náufraga se unir?

Nada escuto, neste mar agora amplo,

senão as ondas. Nas ondas do som, o silêncio de ondas. Só onde soa o silêncio de ondas anda o som, o som do silêncio. Entre silêncio e som, entre som e silêncio, a onda. Entre o sol do silêncio e o som do sol, entre o sono sonegado pelo sino do som, acorda o silêncio do sino solerte do sol. O solêncio. O sinêncio. (Jamais escutamos o silêncio sem o dizer. Jamais escutamos o silêncio sem o dizer).

António Cícero

terça-feira, 21 de julho de 2009

linha da dança

Dançarina da Cia Trama-foto de Guilherme Cunha


De qualquer modo dança.
De qualquer modo sente.
De qualquer modo o corpo contém o dia.
De qualquer modo as cores e o Músculo.
De qualquer modo o coração.
De qualquer modo sempre no Fundo a Memória.
Mas de qualquer modo sem TEORIAS.
De qualquer modo com a teoria da poética que é não existir teoria e só existir poética.
De qualquer modo a ciência atrapalha um pouco, mas não totalmente.
De qualquer modo curiosidade.
De qualquer modo colecionar montanhas.
De qualquer modo acabar quando o ritmo exige que se continue
o ritmo exige coisas que não devemos aceitar obedecer ser escravos.

Gonçalo Tavares

sexta-feira, 3 de julho de 2009

segredo


A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.

Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.

Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.

Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.

Carlos Drummond de Andrade