Carlos Culleré
terça-feira, 19 de julho de 2011
Carlos Culleré
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Teixeira de Pascoaes
domingo, 21 de março de 2010
21 de março - Dia mundial da poesia
Vinicius de Moraes
Em meio a um cristal de ecos
O poeta vai pela rua
Seus olhos verdes de éter
Abrem cavernas na lua.
A lua volta de flanco
Eriçada de luxúria
O poeta, aloucado e branco
Palpa as nádegas da lua.
Entre as esferas nitentes
Tremeluzem pêlos fulvos
O poeta, de olhar dormente
Entreabre o pente da lua.
Em frouxos de luz e água
Palpita a ferida crua
O poeta todo se lava
De palidez e doçura.
Ardente e desesperada
A lua vira em decúbito
A vinda lenta do espasmo
Aguça as pontas da lua.
O poeta afaga-lhe os braços
E o ventre que se menstrua
A lua se curva em arco
Num delírio de volúpia.
O gozo aumenta de súbito
Em frêmitos que perduram
A lua vira o outro quarto
E fica de frente, nua.
O orgasmo desce do espaço
Desfeito em estrelas e nuvens
Nos ventos do mar perspassa
Um salso cheiro de lua
E a lua, no êxtase, cresce
Se dilata e alteia e estua
O poeta se deixa em prece
Ante a beleza da lua.
Depois a lua adormece
E míngua e se apazigua...
O poeta desaparece
Envolto em cantos e plumas
Enquanto a noite enlouquece
No seu claustro de ciúmes.
quinta-feira, 18 de março de 2010
De lamber as palavras como se
rasas de silêncio elas fingissem
e não se trucidassem contra o vento
e não voassem fundo
e não ferissem?
De afagar as palavras como se
um aguçado arame não
nos arranhasse
e não despisse em nós
a veste que se cola,
a casca da aparência?
De alisar as palavras como se
não fosse duro e fundo
o solo de onde partiram
e o lancinante grito
que lá mora?
É sempre um homem que
por elas fala,
é sempre um coração
que aí adeja!
In Quarteto para as próximas chuvas, Lisboa: D. Quixote, 2008.
terça-feira, 9 de março de 2010
Ao poeta
Manoel de BarrosHomenagem é coisa muito boa! E já estava mesmo na hora de render uma ao maravilhoso poeta Manoel de Barros! O documentário “Só dez por cento é mentira – A desbiografia oficial de Manoel de Barros”, do diretor Pedro Cezar, já está em cartaz na cidade, e eu vou correndo ver! Aliás, corro atrás do Manoel a tempos! Desde quando o conheci, virei andante de seus caminhos, através de seus poemas, num “idioleto manoelês” característico. Encantamento só! Adoro suas desconstruções, suas invenções! Adoro o Manoel!
“Sou metido. Sempre acho que na ponta de meu lápis tem um nascimento."
“Os rios começam a dormir pela orla, vaga-lumes driblam a treva. Meu olho ganhou dejetos, vou nascendo do meu vazio, só narro meus nascimentos."
“Para encontrar o azul eu uso pássaros”
"Noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira".
sábado, 26 de dezembro de 2009
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
Ano Novo
Meia noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.
Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça:
nada ali indica
que um ano novo começa.
E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.
Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta)
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Relógio
As coisas vão
As coisas vêm
As coisas vão
As coisas
Vão e vêm
Não em vão
As horas
Vão e vêm
Não em vão
as coisas não têm paz.)
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Anjo das tormentas
os pescadores fecham
a saída e a entrada
da aldeia
encurralam o anjo
mas ele invoca os ventos
os pescadores são muitos
mas não acuam o anjo agora
não por restarem poucos
mas por ninguém ousar
aproximar-se do mistério de sua fúria
o anjo era o terror de cada um
- um terror incógnito -
como uma voz sem corpo
deslocada
que chama
ao lado contrário do ser
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
quarto crescente
já nem lua é. A lua quer-se grande,
leitosa, apontável às crianças:
olha o homem da lua, os olhos, a
vassoura. Mas uma lua destas,
desfazendo-se em sombras, um ar
de quem passou o dia em claro
já nem lua é. Que não exija então
o impossível, que não se finja
a sério a pedir versos e algum olhar:
o poeta não usa telescópio,
nem se vai acordar uma criança
por gomos de luar
Ana Luísa Amaral, In "COISAS DE PARTIR" (1993)
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
isca
Estou tão próxima das palavras, mas ainda assim me perco delas, às vezes...
Isca no mar de palavras, pesco algumas:
[...]
"Lutar com a palavra
é a luta mais vã.
No entanto,
lutamos mal rompe a manhã".
Carlos Drummond de Andrade
segunda-feira, 27 de julho de 2009
.... mar com corpo, sala com mar, som
com sala, corpo com som. Sal, Sal,
e Sal. Boca de coral vermelho
numa língua de escamas cromáticas,
escalas de sargaço, notas desbotadas.
Naufrágio de cadeiras no resto
de ferros afundados. Ondas me arrastam
desta sala. Das correntezas do som,
a respiração deriva para a amplidão.
A dentada do pâncreas no rosto
de um tubarão. Onde as bocas
com a água dos corpos soletrada? Onde
as que querem com a náufraga se unir?
Nada escuto, neste mar agora amplo,
senão as ondas. Nas ondas do som, o silêncio de ondas. Só onde soa o silêncio de ondas anda o som, o som do silêncio. Entre silêncio e som, entre som e silêncio, a onda. Entre o sol do silêncio e o som do sol, entre o sono sonegado pelo sino do som, acorda o silêncio do sino solerte do sol. O solêncio. O sinêncio. (Jamais escutamos o silêncio sem o dizer. Jamais escutamos o silêncio sem o dizer).
António Cícero
terça-feira, 21 de julho de 2009
linha da dança
Dançarina da Cia Trama-foto de Guilherme CunhaDe qualquer modo o corpo contém o dia.
De qualquer modo as cores e o Músculo.
De qualquer modo o coração.
De qualquer modo sempre no Fundo a Memória.
Mas de qualquer modo sem TEORIAS.
De qualquer modo com a teoria da poética que é não existir teoria e só existir poética.
De qualquer modo a ciência atrapalha um pouco, mas não totalmente.
De qualquer modo curiosidade.
De qualquer modo colecionar montanhas.
De qualquer modo acabar quando o ritmo exige que se continue
o ritmo exige coisas que não devemos aceitar obedecer ser escravos.
Gonçalo Tavares
sexta-feira, 3 de julho de 2009
A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.
Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.
Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.
Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.
Carlos Drummond de Andrade
